Após 2 anos, Bon Odori retorna de forma presencial
Festival típico da cultura japonesa deixou de ocorrer nos anos de pandemia
Artur Soares, Caio Lucas e Pedro Gadelha
O Bon Odori é um festival de cultura japonesa realizado anualmente em todo o mundo, deixando de ocorrer em 2020 e 2021 por conta da pandemia. A edição soteropolitana não fugiu à regra. Apesar disso, o evento finalmente retorna à capital baiana este ano de forma presencial, trazendo à tona a relevância de suas contribuições culturais, midiáticas e gastronômicas difundidas em Salvador. O festival vai ser realizado entre os dias 26 à 28 de agosto, de acordo com as antigas tradições do calendário lunar, e é carregado de simbolismos e costumes japoneses, atraindo todos os tipos de público – dos mais curiosos até os mais experientes nesta cultura tão exótica.
Em Salvador, sua primeira edição foi em 1991, porém, nessa época, o evento era focado somente na realização da dança folclórica. Em 2008, em celebração ao centenário da imigração de japoneses para o Brasil, o evento foi reestruturado e passou a ser conhecido como Festival da cultura japonesa. A celebração é organizada pela Associação Cultural Nippo-Brasileira de Salvador (ANISA), uma entidade cultural sem fins lucrativos que foi fundada em 31 de maio de 1975 pelos descendentes de japoneses moradores na capital soteropolitana, com o intuito de congregar as famílias de imigrantes que aqui trabalham.

Atualmente, a ANISA tem como objetivo apoiar a comunidade nikkei baiana e divulgar a cultura japonesa. Para isso, além da realização do Bon Odori, a instituição também promove diversas iniciativas, como a escola de língua japonesa, o grupo cultural wado, dos tambores típicos, a prática do baseball, entre outros. Lika Kawano, de 58 anos, é a vice-presidente da associação e presidente da Federação Cultural Nippo-Brasileira da Bahia. A federação abrange 11 associações do mesmo nicho no estado, de forma a lhes providenciar um suporte essencial.
Nascida em Londrina, Paraná, e tendo se mudado para Salvador há 15 anos, Lika é neta de japoneses e tem um longo histórico na luta pela preservação e divulgação da cultura nipônica. “Minha família teve muita influência cultural dos meus avós, então não foi muito difícil manter as tradições da nossa cultura. Em Londrina, frequentava muitos locais relacionados com o Japão, escolas de língua japonesa, restaurantes, então sempre tive o incentivo dos mais velhos. Nós só demos continuidade ao o que aprendemos”, reflete ela
A imigração japonesa para o estado da Bahia é um processo de longa data, tendo se iniciado na década de 70, com os japoneses vindo em busca de melhor educação para seus filhos. Nesse período também ocorreu a implantação do Polo Petroquímico de Camaçari, o que aumentou ainda mais o fluxo de profissionais da terra do sol nascente para a Bahia. “Eu particularmente acho que não só os soteropolitanos, como também os baianos, admiram muito a cultura japonesa e a gente sente um abraço e uma admiração pelas nossas tradições, o que faz com que a gente cada vez mais continue com as nossas ações e com esse festival que é o único na Bahia”.

Outro evento organizado pela ANISA e que merece destaque é o concurso de Miss Nikkei Bahia, que também acontece anualmente. As inscrições ocorrem durante o mês de julho e tem como objetivo divulgar a beleza oriental no estado. As candidatas devem ter entre 15 e 30 anos de idade e ter ascendência japonesa de qualquer grau, inclusive mestiços. “Tem as competitivas regionais e quem ganha vai para a competitiva nacional. A final ocorre sempre no festival do Japão em São Paulo”, afirmou Sofia Sayuri Miyamoto, 22 anos, estudante do curso de cinema da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e concorrente do prêmio desde 2019.
Além do envolvimento na competição, Sofia também tem uma forte ligação com o Bon Odori. Seus avós vieram para o Brasil por conta da guerra, tendo vindo primeiro para o Pará, e migrando posteriormente à Bahia. Seu falecido avô era ex-presidente da Federação Nippo-Brasileira da Bahia e também ex-presidente de uma associação em Ituberá, onde mora sua família. Já o seu pai é um dos responsáveis pela organização do Bon Odori, pois faz parte tanto da Federação quanto da ANISA: “Eles sempre eram chamados para trabalhar no evento, principalmente o meu pai, e ele ficava sempre no estande da Federação, que tem como objetivo difundir as outras associações da Bahia, que chegam a quase 20.”
Nascida em Salvador e já tendo participado como cosplayer, voluntária e concorrente a Miss, Sayuri é uma veterana do Bon Odori, mas ainda assim afirma estar bem animada para a volta do evento. “Neste ano temos algumas surpresinhas legais”, revelou. Segundo ela, toda essa animação não é só por parte dela. “Meu professor de japonês, Lucas Argolo, é brasileiro e adora a cultura japonesa, totalmente imerso nisso, e ele diz que o Bon Odori é o carnaval dele. E enquanto as pessoas passam o ano inteiro esperando pelo carnaval, ele fica esperando o Bon Odori, que é quando ele sai, se diverte e dança”.
As origens do festival

Foto: Muza-chan
No Japão, o Bon Odori é um dos eventos que ocorrem durante o festival de Obon. O evento acontece durante todos os três dias do festival, se tratando de uma dança folclórica que é feita ao redor de um andaime de madeira chamado yagura, no qual os músicos ficam. A dança é feita ao som de tambores, entretanto, tanto a música quanto a coreografia podem variar de região para região. As músicas geralmente abordam mensagens espirituais ou canções folclóricas, porém, em alguns casos, também utiliza-se de músicas modernas ou até mesmo músicas infantis.
Em alguns casos, a dança pode retratar a história e a especialização de uma região, como a pesca, a colheita ou a mineração. Assim, a canção Tankō Bushi, criada numa região marcada pelo extrativismo do carvão, tem em sua coreografia movimentos que lembram os de um mineiro, como pegar carvão com uma pá, colocar sacos nas costas, empurrar um carrinho de mina e etc.

Além dessas, também existem outras maneiras pelas quais as danças realizadas no Bon Odori podem variar de acordo com a região. Em alguns casos, a dança é feita utilizando leques ou tenugui, que são pequenas toalhas de mão sem bainha e que geralmente são estampadas com algum desenho. Já em outros casos é feito o uso de kachi-kachi, que são pequenos badalos de madeira.
Essa comemoração chegou até o Brasil junto com os imigrantes japoneses. Esse processo de imigração se iniciou em 18 de junho de 1908, com a chegada do navio Kasato Maru, que trouxe o primeiro grupo de japoneses ao país. Desde então, tanto os imigrantes quanto seus descendentes vêm lutando para conservação e divulgação de sua cultura, formando no Brasil a maior comunidade nipônica fora do Japão, tendo em torno de 2 milhões de habitantes. A Bahia é o estado com a terceira maior população nipo da nação, tendo em torno de 100 mil imigrantes ou descendentes e instaurando sua primeira colônia no município de Una.
Uma cultura que cativa os soteropolitanos
O evento não se limita apenas aos descendentes de japoneses, muitos soteropolitanos são atraídos para a festividade, principalmente com o intuito de fazer cosplay de seu personagem favorito. Cosplay é a prática de se fantasiar de algum personagem fictício, geralmente usando lentes de contato coloridas, perucas, roupas e outros tipos de acessórios.

“Sempre gostei da ideia de me vestir e interpretar personagens, desde a infância. Anos depois, na adolescência, soube através de um amigo que existia esse hobby chamado Cosplay e que rolavam eventos em Salvador que as pessoas iam vestidas de personagens. A partir deste momento, foi algo que eu soube que precisava participar”. Afirmou Victor de Sá Ferreira Karl, formado em produção cultural pela UFBA e fundador do grupo Cosplayers – BA. Victor, de 27 anos, já é adepto da prática a bastante tempo, tendo feito seu primeiro cosplay em 2011 – o personagem escolhido foi Albert Wesker, vilão da saga Resident Evil: “Apesar de ser uma roupa quente para Salvador, parecia algo possível para o meu primeiro cosplay, então fui atrás das peças de roupa para fazer o cosplay”. Embora participe do Bon Odori desde 2013, Ferreira fundou o grupo no ano de 2012, com o intuito de que os cosplayers que se conheceram em eventos pudessem trocar e manter contatos, combinar cosplays da mesma obra, trocar dicas e afins.
Entretanto, a prática de cosplay ainda é mal vista por algumas pessoas, sendo constantemente alvo de preconceito. Com a ascensão das redes sociais essa situação vem mudando, disse Vitor: “Muita gente diz ser coisa de maluco ou coisa de criança, mas a maioria fala isso apenas por ignorância e senso comum. Conforme o hobby vai se tornando algo mais conhecido na grande mídia, e em ambientes como TikTok, as pessoas vão conhecendo melhor e aceitando.”
Para além do Bon Odori

Mas o Bon Odori não é o único local em Salvador onde a resistência e importância da cultura japonesa é expressada – a loja “Nippo brasileiro: Produtos orientais” é um exemplo disso. Criada em 2009 e localizada no mercado do Rio Vermelho, a loja tem como objetivo a venda e divulgação da gastronomia japonesa na capital baiana. Os donos dela são Emília Yumi Sales Aoki e seu irmão Roberto Katsutoshi Sales Aoki, ambos com ascendência japonesa por parte paterna. Seus avós vieram de navio ao Brasil com a promessa de que teriam um recomeço cheio de oportunidades.
Emília afirmou que “mantendo alguns hábitos, principalmente alimentares e repassando ensinamentos sobre a história e cultura”, tanto ela quanto sua família conseguem continuar com suas tradições, mesmo estando longe de sua terra de origem. A loja atrai tanto os descendentes de japoneses quanto os não descendentes, sendo uma forma de conhecer e consumir a gastronomia estrangeira.
A cultura japonesa em Salvador persiste influente e enraizada em suas origens, atraindo e conquistando cada vez mais mais adeptos e admiradores ao redor de toda a capital e até mesmo fora dela, vencendo o preconceito e as dificuldades. O Bon Odori tornou-se essencial na sua difusão e é uma oportunidade para se descobrir novos sabores, costumes e atividades lúdicas.


Belíssima reportagem!
Queria divulgar o Bon Odori para amigos, esse é um agrupamento perfeito dos temas do festival, obrigada! 🥺🤏🏻❤️