Rafael Velame: “Havia um muro entre o jornalista e o leitor, que foi quebrado durante a pandemia”

João Francisco Araújo

Fundador do Blog do Velame e do projeto Dados Abertos de Feira de Santana, Rafael encarou a pandemia como um momento de trabalho pesado e muita vigilância. Com ênfase no contexto comunitário do Blog, o entrevistado destaca a participação dos leitores no processo jornalístico: “Eu acho que isso é uma mudança permanente, essa colaboração do leitor com a notícia.”. Hoje, fora do jornalismo clássico, trabalha com marketing e ajuda no projeto Dados Abertos, fundado em conjunto com a programadora Ana Paula Gomes. Sobre a transparência durante a pandemia, destaca: “Quando você não tem essa cobrança, não tem essa transparência, quem comanda o poder público faz o que quer.”

 

Como era sua rotina de trabalho, com o Blog e o Café das 6?

Era uma rotina bem tranquila. Quando começou a pandemia aqui no Brasil a gente já estava acompanhando, mas sem muitas mudanças de rotina. Logo quando começou o primeiro caso no Nordeste, que inclusive foi aqui em Feira, acabou dando ainda mais trabalho para nós. Aí realmente mudou tudo. Eu tinha uma rotina de chegar na Rádio Globo às 5:50, o programa começava às 6:00 e ia até 8:00. Acho que na segunda semana na pandemia, o programa já começou a ir até às 8:30. E na terceira, a gente esticou a programação de jornalismo. Eu comecei a entrar também em um programa que começava às 12:00 até 13:00, por conta dessa demanda de notícias vinculadas à pandemia que a gente precisou atender. Então, aumentou bastante o trabalho na rádio, e no blog também. Foi mais gradativo, não foi como na rádio que imediatamente já alterou bastante a rotina. Mas, no blog as coisas foram aumentando à medida que as restrições foram acontecendo. Quando começou a restrição do comércio, o trabalho aumentou bastante, pois aumentou muito a cobrança da população em ficar informada sobre esses decretos. E o blog acabou se tornando um dos principais veículos. Porque como eu tinha boas fontes, conseguia dar as notícias do que seria publicado no dia seguinte com antecedência, às vezes um dia antes. Isso fez crescer bastante a audiência, e a cobrança também. Eu passei a trabalhar praticamente 24 horas por dia, o blog era um plantão eterno. Quando não tinha pandemia, lógico que eu trabalhava bastante, mas eu não precisava ficar tão ligado. Dava para dar uma relaxada no final de semana, desconectar um pouquinho, à noite também. E com a pandemia isso acabou. Eu passei a ficar 24 horas disponível para fazer qualquer atualização no blog, por conta dos acontecimentos que a pandemia acabou gerando, que não foram poucos. Além dos casos que a gente acompanhava, vinham esses outros desdobramentos. Festa clandestina que acontecia, os decretos, protestos, vacina que vem ou não vem. Então, foram muitos acontecimentos que demandavam uma cobertura grande do blog. Apesar das pessoas que falam “Tudo isso que passava a imprensa inteira já estava cobrindo, qual a importância de um blog local cobrir também?” Aí é que vem o grande diferencial. As pessoas se informavam bastante sobre tudo da pandemia através do blog, e essa responsabilidade pesou na gente. Na gente não, em mim! Porque eu era sozinho. E como as pessoas pediam bastante por informações, eu me sentia nessa responsabilidade de estar 24 horas atualizando e respondendo as pessoas que entrassem em contato. Sobre decretos, acontecimentos, casos, média de internação. Basicamente, eu passei a trabalhar 5 vezes mais, foi isso que mudou.

Dada essa carga de trabalho extra, por que não arranjar uma equipe para o blog?

Eu já tentei algumas vezes ter uma equipe no blog. Algumas vezes deu certo, outras não. Só que o blog ainda é uma coisa pouco rentável. Você precisa ter uma equipe comercial, vender. E apesar das pessoas acharem que o blog era minha principal atividade, eu nunca vivi nem consegui viver do blog. Ele existe desde 2008, mas eu nunca consegui manter uma regularidade comercial, ter uma equipe comercial que vendesse propaganda ao ponto de manter uma boa equipe jornalística. Eu já tive vários voluntários, uma galera acaba gostando do trabalho, vários estudantes me procuram: “Eu quero estagiar no blog, mesmo que seja de graça”. Então, eu já coloquei algumas pessoas para trabalhar e ser uma equipe. Teve um período que eu montei uma equipe grande de jornalistas. A gente montou um projeto de financiamento coletivo. Mas cada um trabalhava em outros veículos e acabou que não era a primeira opção deles. Não é que não deu certo, mas eu queria alguém que fosse que nem eu. Quando eu pensava em montar uma equipe no blog, eu sempre pensava em uma pessoa que tivesse o mesmo compromisso que eu sempre tive. Nunca deixar de atualizar todos os dias, ter no mínimo uma atualização. Na pandemia foi muito mais do que isso. É que o blog também não era factual, ele virou factual por conta da pandemia. Mas não era um blog de notícias, como um jornal diário. Era de reportagens investigativas, de questionamentos políticos. E a pandemia até isso fez a gente mudar um pouquinho.

Enquanto ao fim do Blog do Velame, quanto o contexto da pandemia influenciou essa decisão?

Influenciou bastante. Não foi uma coisa decidida agora, eu já pensava antes. Mas, eu sempre fui convencido do contrário. Quando eu comentava com meus amigos eles diziam: “Deixa ai, você vai fazendo quando der. Não pare não que é importante para a cidade”’. E eu ia deixando. Às vezes sem dar tanta atenção. Sempre atualizando, mas não como ele merecia. Quando as pessoas me perguntam enquanto ao fim do blog eu falo sempre: “Você duraria quanto tempo trabalhando 95 por cento do seu tempo em uma coisa que lhe dá 5 por cento da sua renda?”. Era o que acontecia. Então não fazia sentido nenhum, entendeu? Era mais por gostar mesmo, e por acreditar que fazia um trabalho importante para a cidade. Então, a pandemia influenciou bastante para eu ter acabado com o blog, influenciou em todas as decisões que eu tomei como jornalista nesse período. Porque apesar de termos a pandemia agora como um grande exemplo da importância do trabalho do jornalismo. A gente tem a prova de que se não fosse o jornalismo as coisas estariam muito piores. Apesar disso, a profissão não tem o reconhecimento que deveria ter, apesar da importância. As pessoas atualmente são incitadas a se voltar contra jornalistas, contra os fatos. Por conta de opiniões totalmente baseadas em fake news. E isso acaba trazendo um cansaço mental muito grande. No meu caso ainda, que não vivia disso, eu não precisava passar por certas coisas que eu estava passando, ler certas coisas que eu estava lendo. Então melhor dar um tempo, dar uma descansada, pensar o que eu vou fazer. E foi o que eu fiz. Ainda consegui achar uma pessoa para manter o blog no Instagram, que é o que está acontecendo. Mas como ele era antes acabou. Minha influência hoje na parte de jornalismo do blog é quase nenhuma, é João [João Guilherme Dias] que está tocando.

Nesses dois contextos que você trabalhou, na rádio e no blog, você acha que alguma mudança vai ser permanente?

Eu acho que sim. Por exemplo, no rádio tem uma coisa que a gente fazia antes e agora já está bem diferente. Todas as entrevistas do dia, a gente fazia muita questão que fossem presenciais, e hoje em dia, já está muito comum… às vezes é até melhor que seja por telefone, isso aí mudou bastante. Não que entrevista por telefone na rádio não fosse uma coisa comum, mas a pandemia mostrou que realmente é desnecessária a presença no estúdio. O ouvinte já se acostumou também com aquela diferença de áudio, que era uma preocupação. Eu acho que isso é uma das coisas que vai ficar. Por exemplo, no Café das 6, eu não aceitava. Se fosse por telefone, só se o cara morasse fora, mas se fosse daqui tinha que ser no estúdio, e com a pandemia isso mudou. Já com o blog, mudou mesmo a rotina, mas eu acho que as coisas vão melhorar, vão voltar ao normal, como já estão começando a voltar. Uma coisa que eu acho que fica é a participação do leitor na notícia, que aumentou bastante na pandemia. As pessoas continuam participando da notícia em si. Você posta uma notícia e a galera vai complementando, questionando. Tem as pessoas que colaboram com a notícia, e com a pandemia isso ficou bem claro, pelo menos no público do blog. Eu acho que isso é uma mudança permanente, essa colaboração do leitor com a notícia.

Então você acha que a pandemia aproximou o jornalista do público?

Sim, eu acho que sim, aproximou bastante. Pelo menos os mais conscientes. Eu, por exemplo, passei a ser muito mais conhecido na cidade por conta do Twitter, das informações que eu passava sobre a vacinação, principalmente. As pessoas me tinham como uma fonte confiável. E isso não aconteceu só comigo não, com outros jornalistas também. As pessoas continuam confiando no jornal, na rádio, mas elas querem saber quem foi que deu a notícia, quem é a pessoa por trás daquela notícia. E essa relação acabou aproximando mais o jornalista. Papel que as redes sociais já vinham fazendo faz um tempo. As pessoas se sentem parte da notícia, se sentem colaboradores, amigos do jornalista. As pessoas no twitter comigo são assim, conversam comigo sobre a notícia, mandam mensagem dizendo: “Tem isso aqui também, eu tenho essa informação, sou vizinho, tenho aqui uma foto”. Havia um muro entre o jornalista e o leitor, que foi quebrado durante a pandemia. Isso era uma coisa que as redes sociais já vinham fazendo, mas a pandemia acelerou esse processo, demoliu esse muro mais rápido.

Mudando um pouco de assunto, você é um jornalista muito preocupado com transparência e com dados, inclusive ajudando a fundar o projeto “Dados abertos de Feira de Santana”. Onde você coloca essa preocupação?

Isso. O Dados surgiu por conta de uma denúncia que eu fiz no Café das 6. Tem uma menina aqui de Feira de Santana que mora na Alemanha, é programadora e desenvolvedora. Ela ouvia o programa de lá da Alemanha. Ouviu essa notícia que eu dei, falando alguma coisa relacionada à merenda escolar, uma licitação, algo assim. Ela ouviu e mandou mensagem para gente perguntando onde achar esses dados. Eu falei que no site de transparência da prefeitura. Ela fez um raio X, uma devassa no site da prefeitura e descobriu vários erros, várias falhas de informações. E no da Câmara também. Ela veio, se apresentou, falou que era programadora, uma menina muito talentosa. “E aí Velame, você topa fazer um projeto de transparência?”.  Fomos conversando, juntando mais gente, acabou que o Dados nasceu aí. E nesse período de agora, a gente formava grupos de trabalho para investigar fatos relacionados com a pandemia. A gente fez uma devassa, por exemplo, nas contas do hospital de campanha de Feira. Tudo está disponível nos perfis do Dados Abertos, no site, instagram. Então, a gente conseguiu informações que ninguém conseguia através de pedidos de transparência. O prefeito de Feira de Santana, Colbert Martins, recebeu uma notificação do Tribunal [Tribunal de Justiça da Bahia], por falta de resposta para a gente. Ele não respondeu alguns pedidos nossos, nós acionamos o Ministério Público e o Tribunal de contas notificou o prefeito. Só assim ele mandou os dados. Então, é uma preocupação que eu tenho há muito tempo, e quando eu conheci a Ana Paula, a gente fortaleceu isso. Eu precisava de alguém que fosse da tecnologia, que conseguisse fazer o que eu não sabia. Eu sabia fazer investigação, trabalhar com os dados, transformar dados em reportagens, mas eu não sabia fazer o que ela sabia. Por exemplo, para dar mais transparência ela criou um bot que publica no Twitter todos os dias o Diário Oficial, uma coisa que possui diversas informações importantes mas não tem tanta publicidade, está escondido no site da prefeitura. Ela criou bastante ferramentas que ajudam o cidadão comum a ter acesso a algumas informações que não são facilmente encontradas. Estão enfiadas naqueles sites de transparência da prefeitura e do Tribunal de Contas, que são bem difíceis de mexer e de ter acesso aos dados. Então o Dados Abertos veio para tentar facilitar, traduzir esses dados para o cidadão comum.

Então você enxerga essa transparência como fundamental nesse período que nós enfrentamos?

Fundamental. Essa pressão, a cobrança que a gente fez. Não só com o hospital de campanha, com a questão da vacina a gente também estava em cima. Quando você não tem essa cobrança, não tem essa transparência, quem comanda o poder público faz o que quer. Quando não tem fiscalização eles fazem o que eles querem, como bem entendem, gastam como querem. E se a gente não tiver ninguém para cobrar, vão cometer crimes e sair impunes. Então, nesse período principalmente, a gente apertou mais, fiscalizou mais. Porque a gente sabia que estava chegando mais dinheiro, e que esse dinheiro tinha que ser destinado ao fim a que ele veio. A gente ficou bem atento a isso e também aumentou nosso trabalho no Dados Abertos.

Para finalizar, qual você acha que é o futuro do jornalismo, tanto independente quanto tradicional, em Feira de Santana?

É o seguinte. Primeiro, que jornalismo independente em Feira, fora o blog, eu não conheço nenhum. Não conheço, nunca fui apresentado a ninguém que faz o que eu faço desde 2008. Que é o tipo de denúncia sem partidarismo, o tipo de investigação sem viés político nenhum. Uma das coisas que eu lamento bastante no fim do blog, é que Feira perde o único veículo que fazia jornalismo realmente independente da cidade. Posso estar enganado, mas eu não conheço outro. Sobre o futuro da mídia tradicional, eu não vejo nenhuma alteração, nem nenhuma mudança grande nos próximos anos. Infelizmente, a mídia tradicional da cidade ainda depende muito do poder público. Se você der uma olhada nas rádios da cidade, os maiores programas, os principais programas são terceirizados. São horários comprados por radialistas que têm vínculo com o governo estadual ou municipal. E só assim eles conseguem manter os programas que eles têm. São horários caros, mas os ótimos contratos com prefeitura ou governo do estado acabam possibilitando que eles mantenham esse tipo de relação. Tá errado isso, Velame? Cada um sabe o que está errado ou não. Não está errado se mesmo com essa relação eles continuem cobrando e fiscalizando, como deve ser feito o trabalho jornalístico. Só que não é o que a gente vê. Quem tem esses contratos acabam por aliviar as coisas que acontecem. Então, enquanto a mídia de Feira depender de dinheiro público para sobreviver, não tenho boas expectativas que melhore. Isso vale para rádio, jornais, sites, TV, onde a gente vê essa dependência, que ao meu ver prejudica bastante a qualidade do jornalismo feito na cidade. Infelizmente, poucas pessoas têm coragem de falar isso que eu falo. Você vai ouvir isso de poucos colegas porque todo mundo quer trabalhar nesses veículos e não têm coragem de dar esse tipo de opinião. Li todos esses que estou falando, acabam sendo meus amigos também. Mas os fatos estão aí para serem colocados, cada um que venha com seu argumento para se defender. Por exemplo, uma coisa simples. Estávamos falando aqui do Dados Abertos. A gente fez uma devassa nas contas do hospital de campanha, divulgando informações super relevantes e nenhum veículo da cidade se interessou nem nunca publicou. A gente sabe que isso não é à toa. Esse é só um exemplo de milhões que eu posso citar. Então, não tenho muitas esperanças de que a imprensa tradicional de Feira melhore a qualidade sendo ainda tão dependente do poder público como é.

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