Olga Amaral: “A gente propõe a verdade, e eles querem bagunça”

 Por Lucas Santos Dias

 

A apresentadora do “BATV” Olga Amaral defende que grupos negacionistas da pandemia atrapalham o trabalho da imprensa. “O jornalista deve se manter comprometido com o foco dele, que é passar uma notícia de credibilidade”. A jornalista diz também que o modo de fazer reportagens e entrevistas mudou na pandemia com o uso de plataformas de videoconferência online. “A gente gravava, não precisava ir na casa da pessoa: para a gente nem se expor, nem expor essa pessoa que estava em quarentena”. A repórter da TV Santa Cruz admite ainda que, durante o período pandêmico, os jornalistas tiveram que observar mais o autocuidado na rotina de trabalho.

Quais são as diferenças na rotina de fazer telejornalismo antes e depois da pandemia? O jornalista é sempre muito preocupado com o produto, com as pessoas, com os entrevistados, com entregar um texto bom. Nessa pandemia, a gente teve que lidar com o autocuidado. Por exemplo, às vezes atropelo um horário de almoço para poder ir atrás de uma boa fonte, para poder conseguir fazer um “ao vivo”, para estar ali naquele momento, no “factualzão”. A gente foi pego de surpresa no sentido de: agora é a hora de a gente tomar jeito e se cuidar [risos].A saúde em primeiro lugar, nossa vida em primeiro lugar. Foi a principal diferença. Eu nunca tinha tido medo durante uma reportagem, durante uma apresentação de telejornal, e eu tive esse medo da contaminação ou de contaminar quem eu gosto. Foi muito difícil esse período: os protocolos de segurança rígidos, máscara o tempo inteiro, álcool em gel. A gente utilizou até microfones diferentes: na reportagem tinha o microfone do repórter e tinha o microfone do entrevistado. A gente observava se o lugar estava muito fechado, se tinha muita gente por metro quadrado. Então foi uma mudança de rotina nesse sentido de autocuidado e de observação se os outros estavam se cuidando também. Algumas mudanças foram bastante sentidas com relação à forma de entrevista também. Eu tive muitos entrevistados via plataforma de conversa: Meet , Zoom, esse tipo de plataforma. A gente gravava, não precisava ir na casa da pessoa: para a gente nem se expor ,nem expor essa pessoa que estava em quarentena. A gente percebeu essa mudança. Várias reportagens sendo feitas dessa forma. A gente saia na rua para captar algumas imagens e o restante [era feito] tudo pelo Zoom e pelo Meet. Foi interessante. Tanto interessante que a gente conseguiu conversar com vários especialistas em Covid, de todo o Brasil, por conta desse fazer jornalístico diferente.

Nesse sentido, qual mudança veio para ficar? Eu senti que a gente abraçou mesmo a ideia de fazer esse tipo de entrevista por meio dessas plataformas. É uma coisa bem interessante. A gente era meio caxias com relação aos vídeos, às imagens que chegavam até a nossa redação ou então que estavam circulando nas redes sociais. Um exemplo, se tivesse acontecido um incêndio num galpão e alguém fizesse um vídeo que não estivesse muito bom, a gente mandava a equipe no local a qualquer custo: apertando horário, faltando pouco tempo para o jornal, mas a gente mandava a equipe. Agora, com a pandemia, a gente entendeu que o que vale não é a imagem perfeita, mas a imagem. Estão usando bastante essa participação das pessoas. Já estavam muito interativos os jornais com a participação das pessoas, mas isso acabou ficando mais forte ainda durante a pandemia. Duas questões que chegaram mesmo para ficar: a entrevista por meio das plataformas e cada vez mais essas imagens, esses registros das pessoas, dos “factuais”.

O BATV e o Bahia Meio Dia são jornais de audiência ampla na região Sul da Bahia, atingindo telespectadores de diversas realidades sociais. Dessa forma, qual foi a importância desse tipo de telejornalismo de televisão aberta no contexto da pandemia? A gente teve muito cuidado para informar. O mesmo cuidado de sempre, só que como a gente estava lidando com o desconhecido, a gente teve que estudar muito. A gente teve que ir buscar muitas fontes para poder passar exatamente o que as autoridades em saúde e a Organização Mundial da Saúde estavam dizendo. A gente serviu muito para traduzir [as informações] para o telespectador nesse contexto de pandemia. As pessoas estavam muito desinformadas. À toda hora as “fake news”, aquela pessoa da família que achava alguma coisa e já começava a falar sem propriedade. Claro que com a diversidade de realidades sociais, a gente lida mesmo com essa dicotomia, com essa polarização da situação política do nosso país. Então foi muito importante, nesse sentido, a gente levar informação de verdade e quebrar vários ciclos, várias redes e cadeias de notícias falsas.

Em meio a tantas notícias falsas acerca da pandemia, como os jornalistas podem garantir uma curadoria precisa das informações? A gente tratou muito com as fontes oficias da Secretaria de Saúde, tanto municipal quanto estadual, conversamos muito com vários especialistas , infectologistas e outros profissionais da saúde para garantir que aquela informação estava realmente correta. A gente lançou mão dos nossos parceiros e colegas como o G1,que tem o “Fato ou Fake”. Na pandemia da Covid-19, eles trabalharam muito nesse aspecto de desmentir as barbaridades que estavam sendo ditas. Colamos muito no programete que estava sendo exibido na Globo, com Márcio Gomes na época, o “Combate ao Coronavírus”. Eu lembro de ter conversado com especialistas de São Paulo, de Belo Horizonte. A gente teve essa possibilidade de conversar com gente do Instituto Emílio Ribas , de São Paulo e de Belo Horizonte também, pessoas muito renomadas. Justamente graças à tecnologia, que a gente aprofundou mais nesse momento de pandemia. Então foi assim que a gente foi em busca da verdade.

Como apresentadora, colocando sua imagem para o telespectador, você recebeu ataques ou críticas de grupos negacionistas da pandemia? Enquanto apresentadora, eu tive um feedback bastante positivo com  relação a quem estava assistindo. É um ou outro que fala algo na rua ou que manda uma mensagem no Whatsapp dizendo que a gente só estava falando sobre Covid. Então meu posicionamento na hora da apresentação do telejornal era de explicar que era preciso falar sobre a Covid. O coronavírus estava ameaçando a todos, destruindo famílias e eu tinha mesmo que tomar essa posição de responsabilidade enquanto transmissora de informação. Eu lembro que na reportagem, certa vez, eu ouvi aquela frase que me incomoda bastante:fora Globo lixo!”.[Ela incomoda] porque  é uma agressão à instituição e à empresa na qual eu trabalho, sem dúvidas. Mas ela é uma agressão ao trabalho que está sendo feito naquele momento. Então se eu estou gravando uma entrevista e passa um “cara” gritando isso, é um desperdício de tempo e um desrespeito com meu entrevistado. Eu lembro de ter vivido uma situação assim durante uma reportagem realizada em Ilhéus. Outros desafios: entrevistados que se posicionavam contra o uso da máscara. Ainda há esse tipo de entrevistado. É um trabalho de convencimento para explicar que a gente só pode gravar com a máscara. Mas assim, pessoalmente falando, eu não vivi muitos ataques.

Como o jornalista deve lidar com isso? Vários colegas passaram perrengues com relação a esse ataques que seguem acontecendo, infelizmente. Rir para não chorar mesmo. O jornalista deve se manter comprometido com o foco dele, que é passar uma notícia de credibilidade, com muita verdade, com muita responsabilidade. A gente foi orientado a tomar um posicionamento: vamos pensar no nosso trabalho, no nosso produto, a não ser que a situação ficasse muito complicada. Mas sempre assim: Está havendo ataque? Retire-se , proteja-se, entre no carro e vá embora. Nada de embate. As pessoas estão muito odiosas. Não dá para saber o que elas são capazes de fazer diante de uma situação como essa num Brasil tão polarizado. Então essa foi nossa forma de lidar. Foi o foco, o velho bom foco de sempre que é o nosso fazer jornalístico.

E o quanto esses grupos atrapalham o trabalho jornalístico? Esses grupos atrapalham demais. Porque é aquela velha história: se não quer ajudar , não atrapalha, né?[risos]. Essas pessoas querem, por bem ou por mal, transmitir justamente o contrário do que a gente propõe. A gente propõe a verdade, e eles querem bagunça, eles querem baderna, eles querem inverdades e mentiras. Você está querendo explicar para uma comunidade que aquele  é o procedimento correto , que foi orientado por uma organização mundial de saúde, aí esse tipo de grupo chega e diz que a gente está falando da nossa própria cabeça e atacando o presidente A, B, ou C . É como se a gente ficasse enxugando gelo. A gente querendo informar e esses grupos atrapalhando com a desinformação.

 

 

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